domingo, 25 de agosto de 2013

Eu e meu All Star.
Descobri hoje que sou conservadora.
Levei um susto sem tamanho, nunca tinha me percebido tão tradicional, tão ligada as coisas do passado, tão arredia ao novo e as modernidades, mas não se assustem, vou explicar o porque.
Fui a uma loja de calçado comprar um all star novo, destes simples, preto com cadarços brancos igual ao que levo sempre aos pés e qual foi minha surpresa, olhei o novo na vitrine e ele me olhou como se a dizer, posso te levar para todos os lugares, me observe bem, tenho pequenas florzinhas desenhadas num glitter que é a última moda, tenho três pares de cadarços um de cada cor, sou xadrez por dentro ( e alguém olha os tênis por dentro?), sou confortável, sou o xodó desta vitrine!!
Achei ele exibido e bobo, daí baixei o olhar e vi meus all star velhinhos, com a forma torta de meus pés, com lugares para acomodar os meus joanetes e calos, adquiridos em anos dedicados a dança, como aluna e professora, com seus cadarços encardidos dos banhos de chuva, aqueles temporais de verão que nos pegam no meio tarde caminhando a esmo e que nos fazem sentir a liberdade de sua rapidez e a beleza da sua força e meu tênis indagou:
“- Vais me trocar? Queres este chatinho pretensioso da vitrine?
Esqueceu nossas conquistas, as corridas em meio a pressa pelos corredores da faculdade, perdendo os livros e os trabalhos e eu saltando por cima para não pisoteá-los?
Esqueceu os beijos no parque, onde sentavas no chão e eu ficava jogado um sobre o outro, balançando teus pés de alegria?
Esqueceu o dia em que estavas no show de rock e encontrou o amor de tua vida e eu te ajudei a conquistá-lo, pois te levei tantas vezes ao encontro dele e tantas vezes caminhamos juntos, tu feliz de mãos dadas, eu feliz por te ver assim, esqueceu?
E se me jogares fora, quem vai cuidar de mim?
Quem vai fazer um remendo de E.V.A nos furos em meu solado e depois por uma meia grossa pra não machucar, como tu fez dia destes?
Quem vai guardar os teus segredos?
Quem sabe todos os passos de dança?
Quem canta a tua trilha sonora?
Quem tomou banho de cerveja quando bebestes um pouquinho a mais?
Quem dormiu borrado de batom quando me tirastes dos pés e me fizestes de travesseiro?
Quem tem tinta de todos as cores e texturas respingadas dos teus quadros?
Quem ficou abandonado num canto do quarto quando te apaixonastes por aquele enorme salto alto vermelho, esnobe e que tu logo abandonou para voltar pra mim?
Fui eu! Sou eu! Teu sempre amado all star!
Mas segue em frente, compra este metido e me substitui!”
Parei, olhei para os lados, tinha receio que alguém houvesse escutado meus pensamentos, sorri para o moleque da vitrine, dei tchauzinho e voltei para casa com meu companheiro de tantas batalhas, de tantas alegrias, de tanta vida.
Outro dia vou voltar na loja, vou comprar o xaropinho, pois nossa amizade já nasceu, mas vou dar uma aposentadoria pro meu “Estrela” a mais digna que conheço, vou transformá-lo em vaso, vou o transformar em parte do meu jardim, com flores coloridas e perfumadas, deixá-lo que se desmanche na natureza, como merece um amigo que me ajudou a ser livre e me levou a conhecer o mundo ou simplesmente ficou em silêncio quando eu só queria chorar, um amigo que esperou pacientemente que eu descesse da cama do hospital e voltasse pra casa e para os sonhos que inventamos juntos. by Amanda Nirag

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