Eu e meu
All Star.
Descobri hoje que sou conservadora.
Levei um susto sem tamanho, nunca tinha me percebido tão
tradicional, tão ligada as coisas do passado, tão arredia ao novo e
as modernidades, mas não se assustem, vou explicar o porque.
Fui
a uma loja de calçado comprar um all star novo, destes simples,
preto com cadarços brancos igual ao que levo sempre aos pés e qual
foi minha surpresa, olhei o novo na vitrine e ele me olhou como se a
dizer, posso te levar para todos os lugares, me observe bem, tenho
pequenas florzinhas desenhadas num glitter que é a última moda,
tenho três pares de cadarços um de cada cor, sou xadrez por dentro
( e alguém olha os tênis por dentro?), sou confortável, sou o xodó
desta vitrine!!
Achei ele exibido e bobo, daí baixei o olhar e vi meus all star
velhinhos, com a forma torta de meus pés, com lugares para acomodar
os meus joanetes e calos, adquiridos em anos dedicados a dança, como
aluna e professora, com seus cadarços encardidos dos banhos de
chuva, aqueles temporais de verão que nos pegam no meio tarde
caminhando a esmo e que nos fazem sentir a liberdade de sua rapidez e
a beleza da sua força e meu tênis indagou:
“-
Vais me trocar? Queres este chatinho pretensioso da vitrine?
Esqueceu nossas conquistas, as corridas em meio a pressa pelos
corredores da faculdade, perdendo os livros e os trabalhos e eu
saltando por cima para não pisoteá-los?
Esqueceu os beijos no parque, onde sentavas no chão e eu ficava
jogado um sobre o outro, balançando teus pés de alegria?
Esqueceu o dia em que estavas no show de rock e encontrou o amor de
tua vida e eu te ajudei a conquistá-lo, pois te levei tantas vezes
ao encontro dele e tantas vezes caminhamos juntos, tu feliz de mãos
dadas, eu feliz por te ver assim, esqueceu?
E
se me jogares fora, quem vai cuidar de mim?
Quem vai fazer um remendo de E.V.A nos furos em meu solado e depois
por uma meia grossa pra não machucar, como tu fez dia destes?
Quem vai guardar os teus segredos?
Quem sabe todos os passos de dança?
Quem canta a tua trilha sonora?
Quem tomou banho de cerveja quando bebestes um pouquinho a mais?
Quem dormiu borrado de batom quando me tirastes dos pés e me
fizestes de travesseiro?
Quem tem tinta de todos as cores e texturas respingadas dos teus
quadros?
Quem ficou abandonado num canto do quarto quando te apaixonastes por
aquele enorme salto alto vermelho, esnobe e que tu logo abandonou
para voltar pra mim?
Fui eu! Sou eu! Teu sempre amado all star!
Mas segue em frente, compra este metido e me substitui!”
Parei, olhei para os lados, tinha receio que alguém houvesse
escutado meus pensamentos, sorri para o moleque da vitrine, dei
tchauzinho e voltei para casa com meu companheiro de tantas batalhas,
de tantas alegrias, de tanta vida.
Outro dia vou voltar na loja, vou comprar o xaropinho, pois nossa
amizade já nasceu, mas vou dar uma aposentadoria pro meu “Estrela”
a mais digna que conheço, vou transformá-lo em vaso, vou o
transformar em parte do meu jardim, com flores coloridas e
perfumadas, deixá-lo que se desmanche na natureza, como merece um
amigo que me ajudou a ser livre e me levou a conhecer o mundo ou
simplesmente ficou em silêncio quando eu só queria chorar, um amigo
que esperou pacientemente que eu descesse da cama do hospital e
voltasse pra casa e para os sonhos que inventamos juntos. by Amanda Nirag

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