Coca-Cola com Mentos.
Escrever às vezes dói pouco, às vezes atravessa a alma como lança em chamas num campo de batalhas, hoje está sendo assim, uma revolução interna, uma análise de vazio.
Eu queria escrever um texto sobre bonecas de pano, sobre esta linda boneca da foto, que eu mesma fiz, uma boneca onde dediquei seis horas do meu tempo livre para confeccioná-la, mas que agora deixou de ser o motivo principal do meu texto, pois vou escrever sobre "gente-boneca-de-pano".
Tenho acompanhado os protestos pelo Brasil, num primeiro momento meu peito inflou de orgulho, meus jovens, meus alunos, meus filhos, todos na rua por um ideal, lutar por algo legítimo, seus direitos. Agora passeando pelas páginas das redes sociais, encontro meninas e meninos nas páginas dos eventos, perguntando com que roupas vão, qual o melhor figurino, cabelos presos ou soltos, camisetas pretas ou brancas, e pouquíssimos, se não raros, discutindo os motivos, os porquês, as causas e prevendo consequências, alguém chegou ao cúmulo de dizer: "sou geração Coca-Cola, mas agora com mentos, tô explosiva!", como se isso fosse a causa de se lutar.
Estou triste, sou de uma geração que nasceu no ano do golpe militar, 1964 ano da Legalidade, um ano que marcou o início de anos escuros, de gente que desaparecia e que não se entendia muito bem o que aconteceu, eu morava na capital dos gaúchos e Porto Alegre fervia, aprendemos a ver na polícia não segurança, mas medo, brincávamos na frente das casas até anoitecer sem precisarmos nos preocupar com nada, mas basta avistar uma viatura, seja da polícia civil, brigada militar ou exército, que corríamos para dentro de nossas casas, porque nos foi ensinado a temer, as pessoas que foram levadas naqueles carros não voltaram, na nossa ingenuidade de crianças não entendíamos, mas temíamos sim.
Naquele tempo desfilávamos o sete de setembro, cabelos bem arrumados, luvas brancas para levar a bandeira, pelotões de acrobacias, muito verde e amarelo, eu também não entendia, mas achava lindo o nacionalismo, hoje eu o acho um tanto quanto perigoso.
Lembro da minha mãe chorando pela madrugada, meu pai estava demorando, ele tinha uma reunião com uns amigos, hoje eu sei ele ajudou a fundar um partido político contra a ditadura, o único partido aceito e que fez frente branda contra o governo por vinte anos, mas fez!
Agora vejo jovens perdidos indo de um lado para o outro, sem saber muito bem para onde ir, querem direitos mas não sabem quais, querem lutar mas não sabem porque, vejo jovens querendo tirar do poder quem eles elegeram e apoiando a quem eram contrários, tenho medo disso.
O povo na rua é lindo, incêndios e depredação não!
E me martela na cabeça um questionamento, a quem interessa tirar esta geração das páginas das redes sociais e jogá-las na rua sem orientação, sem conhecimento, sem discernimento, sem um pouquinho de visão política ou histórica??
Hoje tenho irmãos que trabalham dentro dos carros que me davam medo, e aprendi que eles são tão povo quanto eu, e também trabalham sob ordens, dos mesmos políticos que nós elegemos.
Ontem eu fui para a rua junto com meus filhos, nós sabíamos porque estávamos lá, queremos fim a corrupção, mas não o fim da democracia.
Neste momento tenho medo que bonecas de pano sejam manipuladas e o que seria um movimento legítimo, vire apenas "Coca-Cola com Mentos".
Hoje apenas tenho medo, pois o céu está muito escuro e ameaça a chover, não tive tempo ainda de terminar a minha boneca.
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